quarta-feira, 9 de março de 2011

FELICIDADE RELATIVA

            Manhã de quarta-feira, ouço um barulho...O despertador! Levanto-me 5h15 da manhã, penso que poderia ficar mais tempo ali, mas não, tenho que levantar. Dirijo-me ao meu roupeiro, a sensação que tenho é de estar em frente a uma imensa caixa de “guardatudo”. Separo cuidadosamente a roupa que devo usar e ainda sonolenta cambaleio até o banheiro...Penso na vontade de continuar dormindo. A água cai, cai, cai sobre meu corpo. Com movimentos convulsivos termino. A sonolência  se esvaindo, concluo este momento.
            Já vestida, perfumada, lanço mãos aos equipamentos, digo: - Olá, há quanto tempo?
Olhando para a rua percebo que ainda dorme. Apenas aqueles que seguirão para o mesmo destino tentam com os passos “l e n t o s” não acordá-la.
            -Bom dia!
            - Bom dia! Uma voz responde!
            Ouço um som estridente se aproximando ao longe  ...É ele! Todos reconhecem. Ele vai se aproximando timidamente e parando na nossa direção. De repente, com completa impaciência abre-se para que adentremos no seu interior. Já estou acomodada, todos repetem a cena. Partimos. A frente, ele com a mesma impaciência abre-se novamente num gesto que significa dizer : Entrem!
            Estamos saindo! Muitos corpos, muitas cabeças, muitos pensamentos! Da minha janela vejo a vida passar. Vida passa, passa. A vida de lá de fora passa! A vida de dentro, aquela vida que não quero mais insiste em ficar. Eu pergunto: Por que não passa? Insisto em dizer: Vai passar uma hora!
            Olhando a vida de fora, percebo o quanto é bela a criação divina.
            Olho ao meu lado e vejo um menininho, rosto redondo, pele clara, sobrancelhas arqueadas. Ao seu lado havia uma menina que poderia ser sua irmã, mas quando este menino abriu sua pequena e negra boca a primeira palavra que saiu foi: Mãe.
            De repente, aquele quadro chamou ainda mais a minha atenção. Ele olhava para mim, percebia que eu o olhava também e simplesmente se contorcia.  Em meio a um contorcer e outro ele mostrava para mim o lugar que deveria existir dentes ainda infantis. A mãe, que inicialmente, pensei ser irmã, era uma mocinha de pele clara, olhos mortos que não conseguia encarar outro olhar,pois tamanha era sua resignação.
            Mas continuei a olhar aquele quadro. De repente o menino tira algo do bolso. O que será? Eu Pergunto para mim mesma! Ele até esqueceu  minha presença. Eram moedas, ele brincava com as moedas, colocava-as no bolso, retirava-as novamente. Que felicidade esboçava aquele olhar, aquela face. Então ouvi: -Mãe dá para comprar picolé? Ela responde: Dá menino, ôxe!
            Ele novamente olha para mim e mais uma vez com um sorriso negro, balança seu “brinquedo, olho para o garoto e tamanha é minha surpresa não havia mais sorriso. No lugar, havia uma cara de tristeza! De susto e decepção. O “brinquedo” havia caído. A mãe começa a procurar, mas quando olho para baixo vejo entre meus pés aquela que fazia a felicidade, rancando sorrisos do seu dono. Tirei o cinto, abaixando para pegar. Uma vez, de posse do “brinquedo” devolvi ao seu legítimo dono que retribuiu com um largo sorriso. Mais uma vez de posse, recomeça a brincadeira. O olhar desta vez parecia mais brilhante que nunca, pois sabia que o picolé tinha voltado. O carro  para, mãe e filho descem. Ela segura a mão do garoto e os dois saem caminhando. Ela em direção de casa e ele em direção do picolé. E nós prosseguimos nosso caminho até o ponto final.
            Achei interessante escrever tal cena porque me chamou a atenção o fato de que o que pode nos fazer feliz é relativo. Para aquela criança o que a fazia feliz era saber que teria um simples picolé.
            E nós muitas vezes já temos o picolé, mas não o valorizamos, basta acontecer o solavanco para nos tirar o sonhado picolé é que nos damos conta da sua existência!

J. SANTOS-2011

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