sábado, 12 de março de 2011

AS ESCOLHAS

A vida é cheia de escolhas, por isso devemos ter certeza delas para mais tarde não nos frustrarmos com os rumos tomados. Mas de qualquer forma, é melhor o gosto de saber que tentamos do que a sensação de uma prévia derrota por não ter nem tentado.

A VIDA SEGUE!

Não devemos deixar que a vida nos guie. Mas devemos ter o controle dela, sendo protagonistas da nossa própria existência e não figurantes.

quarta-feira, 9 de março de 2011

O QUE O MUNDO PRECISA MUDAR PARA SE TORNAR MELHOR?

            São 11h40, família reunida de repente, aquele chega da escola e acrescenta a cena. Seu nome é Vicente. Ele tem apenas seis anos de idade. Ao chegar, logo deixa cair sua mochila escolar e caminha diretamente até a geladeira. A avó o manda lavar, imediatamente, as mãos, mas ele diz impacientemente:
-Elas tão limpas, vovó.
Uma vez, tendo se refrescado, caminha em direção a TV, sua madrinha se aproxima e pergunta como foi à aula. Ele responde, sem tirar os olhos da Tv, afirmando que tinha sido boa. Ela mais uma vez pergunta o que tinham feito, e ele sem, novamente, tirar os olhos da TV, responde que tinham feito muitas atividades. Entre as atividades que lembrava disse que sua professora pediu que eles respondessem a pergunta:
            O que o mundo precisa mudar para se tornar um mundo melhor? Então, o garoto volta seus olhos para o objeto que se tornava o centro das atenções...
            A madrinha, então com curiosidade o chama de volta, perguntando o que ele havia respondido. Ele olhou- a nos olhos e disse: - Eu respondi que para o mundo melhorar precisava ter o desmatamento das pessoas. A madrinha, então, olha perplexa para o menino e continua ouvindo o eco daquela voz infantil, mas tão segura de si e coerente nos argumentos.
E você adulto, o que acha? Para o mundo melhorar, é necessário ter o desmatamento das pessoas?

J. Santos-2010

FELICIDADE RELATIVA

            Manhã de quarta-feira, ouço um barulho...O despertador! Levanto-me 5h15 da manhã, penso que poderia ficar mais tempo ali, mas não, tenho que levantar. Dirijo-me ao meu roupeiro, a sensação que tenho é de estar em frente a uma imensa caixa de “guardatudo”. Separo cuidadosamente a roupa que devo usar e ainda sonolenta cambaleio até o banheiro...Penso na vontade de continuar dormindo. A água cai, cai, cai sobre meu corpo. Com movimentos convulsivos termino. A sonolência  se esvaindo, concluo este momento.
            Já vestida, perfumada, lanço mãos aos equipamentos, digo: - Olá, há quanto tempo?
Olhando para a rua percebo que ainda dorme. Apenas aqueles que seguirão para o mesmo destino tentam com os passos “l e n t o s” não acordá-la.
            -Bom dia!
            - Bom dia! Uma voz responde!
            Ouço um som estridente se aproximando ao longe  ...É ele! Todos reconhecem. Ele vai se aproximando timidamente e parando na nossa direção. De repente, com completa impaciência abre-se para que adentremos no seu interior. Já estou acomodada, todos repetem a cena. Partimos. A frente, ele com a mesma impaciência abre-se novamente num gesto que significa dizer : Entrem!
            Estamos saindo! Muitos corpos, muitas cabeças, muitos pensamentos! Da minha janela vejo a vida passar. Vida passa, passa. A vida de lá de fora passa! A vida de dentro, aquela vida que não quero mais insiste em ficar. Eu pergunto: Por que não passa? Insisto em dizer: Vai passar uma hora!
            Olhando a vida de fora, percebo o quanto é bela a criação divina.
            Olho ao meu lado e vejo um menininho, rosto redondo, pele clara, sobrancelhas arqueadas. Ao seu lado havia uma menina que poderia ser sua irmã, mas quando este menino abriu sua pequena e negra boca a primeira palavra que saiu foi: Mãe.
            De repente, aquele quadro chamou ainda mais a minha atenção. Ele olhava para mim, percebia que eu o olhava também e simplesmente se contorcia.  Em meio a um contorcer e outro ele mostrava para mim o lugar que deveria existir dentes ainda infantis. A mãe, que inicialmente, pensei ser irmã, era uma mocinha de pele clara, olhos mortos que não conseguia encarar outro olhar,pois tamanha era sua resignação.
            Mas continuei a olhar aquele quadro. De repente o menino tira algo do bolso. O que será? Eu Pergunto para mim mesma! Ele até esqueceu  minha presença. Eram moedas, ele brincava com as moedas, colocava-as no bolso, retirava-as novamente. Que felicidade esboçava aquele olhar, aquela face. Então ouvi: -Mãe dá para comprar picolé? Ela responde: Dá menino, ôxe!
            Ele novamente olha para mim e mais uma vez com um sorriso negro, balança seu “brinquedo, olho para o garoto e tamanha é minha surpresa não havia mais sorriso. No lugar, havia uma cara de tristeza! De susto e decepção. O “brinquedo” havia caído. A mãe começa a procurar, mas quando olho para baixo vejo entre meus pés aquela que fazia a felicidade, rancando sorrisos do seu dono. Tirei o cinto, abaixando para pegar. Uma vez, de posse do “brinquedo” devolvi ao seu legítimo dono que retribuiu com um largo sorriso. Mais uma vez de posse, recomeça a brincadeira. O olhar desta vez parecia mais brilhante que nunca, pois sabia que o picolé tinha voltado. O carro  para, mãe e filho descem. Ela segura a mão do garoto e os dois saem caminhando. Ela em direção de casa e ele em direção do picolé. E nós prosseguimos nosso caminho até o ponto final.
            Achei interessante escrever tal cena porque me chamou a atenção o fato de que o que pode nos fazer feliz é relativo. Para aquela criança o que a fazia feliz era saber que teria um simples picolé.
            E nós muitas vezes já temos o picolé, mas não o valorizamos, basta acontecer o solavanco para nos tirar o sonhado picolé é que nos damos conta da sua existência!

J. SANTOS-2011

terça-feira, 8 de março de 2011

Faculdades Montenegro
CEU- Centro de Pós-Graduação e Extensão Universitário








“AS VARIEDADES LINGUÍSTICAS ENTRE OS ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL I, NA ESCOLA MUL. CHICO MENDES LOCALIZADA NO ASSENTAMENTO AQUARIUS, MUNICÍPIO DE SANTA MARIA DA BOA VISTA-PE”.








Apresentação

O presente projeto implantado na escola Mul. Chico Mendes, localizada especificamente na cidade de Santa Maria da Boa vista-PE, no Assentamento Aquárius, traz como proposta: “As Variedades Linguísticas entre os alunos do Ensino Fundamental I”. O projeto de pesquisa foi elaborado com o intuito de detectar os motivos da existência das variedades linguísticas entre os alunos do Fundamental I.
De acordo com esta problemática, foi lançada a hipótese de que isso é ocasionado devido a fatores socioeconômicos e regionais, pois a maioria dos alunos é proveniente de lugares diferentes e, atualmente, convivem no mesmo assentamento. Para levantamento dos dados serão aplicadas entrevistas com os alunos a fim de constatar a presença das marcas das variedades linguísticas e em seguida, será feita a análise dos dados.
O objetivo principal é identificar que as variedades linguísticas são as variações que uma língua apresenta, em razão das condições sociais, culturais e regionais nas quais são utilizadas.
O referido projeto possui grande relevância, principalmente para os educadores do Fundamental I, da já citada escola, pois estes compreenderão, segundo Bortoni (2004,8): “Que do ponto de vista estritamente linguístico, o erro não existe, o que existem são formas diferentes de usar os recursos potencialmente presentes na própria língua”.

Pág.

1. Justificativa
2. Fundamentos Teóricos
3. Metodologia
3.1. Suprimentos e Equipamentos
 4. Coleta dos Dados
5. Análise e Interpretação dos Dados
6. Cronograma
7. Considerações Finais
8. Referências Bibliográficas
9. Bibliografia
 10. Anexos

1. Justificativa

Este projeto surgiu da necessidade de se identificar que as variedades linguísticas são as variações que uma língua apresenta. Como material para a pesquisa foram gravadas entrevistas com os alunos do 2º, 3º, 4º e 5º anos, do Ensino Fundamental I, todos alunos da Esc. Mul. Chico Mendes. O projeto também tem o papel de defender a tese de que nenhuma língua é mais importante, ou mais certa que outra, mas sim possui características bem distintas as quais são chamadas de variedades linguísticas. Este, também, é de grande relevância para os professores, em especial os que lecionam no Ensino Fundamental I porque aborda temáticas que uma grande maioria dos educadores insiste em não privilegiar que são as variedades presentes na língua, insistindo somente em uma, que não é novidade: a norma culta considerada “certa” e as variedades que diferem dela como erradas.
Nesta perspectiva, este projeto foi elaborado com o intuito de refletir sobre a língua que os alunos falam (que nós falamos) como ressalta Bortoni (2004,13): “Conhecer melhor esta língua que se constitui parte essencial de sua identidade como sujeito social, a língua que o aluno usa para se comunicar consigo mesmo e com os outros e para conhecer o mundo”.A língua que se pretende incutir na mente dos nossos jovens é diferente e bastante distante do português que se usa no cotidiano. Segundo Marcuschi (1997, p. 1): “Uma das principais razões do desprezo pela língua falada é acreditar que a escola é um lugar exclusivo para o aprendizado da escrita.” A escola precisa compreender que a língua não é estática e que passa infindáveis variações que dependem de fatores como: a faixa etária, sexo, escolaridade, condição social e até mesmo a profissão. Além disso, uma mesma pessoa pode falar de um modo diferente, dependendo da situação em que se encontra e de quem são seus ouvintes, ou seja, é um poliglota da própria língua.
Sendo assim, faz-se necessário que a oralidade seja trabalhada nas escolas, não de uma forma preconceituosa, taxando como certos ou errados os diferentes modos de falar. Mas, de forma respeitosa aceitar as diferentes características da fala, tendo em mente que nenhuma é melhor ou pior que a outra. São apenas diferentes. Por isso, são chamadas de variedades linguísticas.

(...)

J. Santos
Graduada em Pedagogia
(FFPP- Faculdade de Formação de Professores de Petrolina)
Graduada em Letras com habilitação em Inglês
(CESVASF- Centro de Ensino Superior do Vale do São Francisco)
Especialização em Letras e Literatura.
(Faculdades Montenegro)
Curso intensivo de Inglês
(Cultura Inglesa)
Professora de Língua Portuguesa da rede municipal de ensino.
Professora de Lingua Portuguesa da rede estadual de ensino.
Membro do Conselho Municipal de Educação.

PARABÉNS, MULHER!

Esta é minha base de sustentação! Quando eu crescer quero ser igual a ela!

BOM CARNAVAL!!

segunda-feira, 7 de março de 2011

SEJA UM EDUCADOR



1. Eduque seus alunos para vida.
2. Seja um “mestre educador” norteando o caminho para a aprendizagem.
3. Não dê algo pronto. Possibilite a reorganização dos conhecimentos sistemáticos.
4. Seja amigo. Pois é nesta ação que está a chave.
5. Trabalhe com dedicação e acima de tudo responsabilidade.
6. Seja flexível.
7. Valorize a subjetividade dos alunos, tendo em mente que todos são seres únicos e, sendo assim possuem ritmos diferenciados.
8. Aproxime-se das vivências dos alunos para compreender suas atitudes.
9. Seja generoso. Pois está na simplicidade das ações as grandiosas conquistas.

E acima de tudo:

10. Trabalhe como coração: Pois o público a ser atingido está em processo de desenvolvimento. Por isso precisa de carinho, amor e principalmente compreensão.

J. Santos-2006

PENSAMENTO – BOB MARLEY


“As vezes construímos sonhos em cima de grandes pessoas… O tempo passa… e descobrimos que grandes mesmo eram os sonhos e as pessoas pequenas demais para torná-los reais!”

FICA PROIBIDO, PABLO NERUDA


Fica proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer,
Ter medo das tuas recordações.
Fica proibido não sorrir ante os problemas,
Não lutar pelo que queres,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar em realidade teus sonhos..
Fica proibido não demonstrar o teu amor,
Fazer com que alguém pague pelas tuas dúvidas e pelo teu mau humor..
Fica proibido deixar os teus amigos,
Não tentar compreender aquilo que viveram juntos,
Chamá-los somente quando precisa deles..
Fica proibido não seres tu perante todos,
Fingir para as pessoas que não te importas,
Esquecer todos os que te querem..
Fica proibido não fazeres as coisas para ti mesmo,
Não fazeres o teu destino,
Ter medo da vida e dos teus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse o último

A ÚLTIMA CRÔNICA, FERNANDO SABINO



A caminho de casa, entro num botequim da Gávea
para tomar um café junto ao balcão.
Na realidade estou adiando o momento de escrever.
A perspectiva me assusta.
Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano
nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um.
Eu pretendia apenas recolher da vida diária
algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência,
que a faz mais digna de ser vivida.

 
Visava ao circunstancial, quer num flagrante de esquina,
quer nas palavras de uma criança ou num incidente doméstico,
torno-me simples espectador e perco a noção do essencial.


Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café,
enquanto o verso do poeta se repete na lembrança:
"assim eu queria o meu último poema".
Não sou um poeta e estou sem assunto.
Lanço então um último olhar fora de mim,
onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.


Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se,
numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos.
A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras,
deixa-se acentuar pela presença de uma negrinha de seus três anos,
laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre,
que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas
ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor.
Três seres esquivos que compõem em torno à mesa
a instituição tradicional da família, célula da sociedade.
Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.


Passo a observá-los.
O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso,
aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira,
e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma.
A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa,
como se aguardasse a aprovação do garçom.


Este ouve, concentrado, o pedido do homem
e depois se afasta para atendê-lo.
A mulher suspira, olhando para os lados,
a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali.


A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.
O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão,
larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro,
apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de coca-cola
e o pratinho que o garçom deixou à sua frente.
Por que não começa a comer?


Vejo que os três, pai, mãe e filha,
obedecem em torno à mesa a um discreto ritual.
A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante,
retira qualquer coisa.
O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera.
A filha aguarda também, atenta como um animalzinho.
Ninguém mais os observa além de mim.


São três velinhas brancas, minúsculas,
que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo.
E enquanto ela serve a coca-cola, o pai risca o fósforo e acende as velas.
Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore
e sopra com força, apagando as chamas.
Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada,
cantando baixinho: "parabéns pra você, parabéns pra você..."
e com os pais acompanhando.
Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa.


A negrinha agarra finalmente o bolo
com as duas mãos desesperadas e põe-se a comê-lo.
A mulher está olhando para ela com ternura -
ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo,
limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo.
O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito,
como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. 
 

De súbito, dá comigo a observá-lo, nossos olhos se encontram,
ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça baixar a cabeça,
mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre um sorriso.
Assim que queria a minha última crônica:
que fosse pura como esse sorriso.

O CASO DO VESTIDO, DRUMMOND




Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas , é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.


Texto extraído do livro "Nova Reunião"